“A construção de um sistema de monitoramento e avaliação é um desafio político-institucional e não técnico”, diz Gonzalo Hernández Licona

“A construção de um sistema de monitoramento e avaliação é um desafio político-institucional e não técnico”, diz Gonzalo Hernández Licona

Rodrigo Pedroso, jornalista e mestre em sociologia

O reconhecido acadêmico e economista mexicano Gonzalo Hernández Licona desenvolve trabalhos importantes nas áreas de desenvolvimento econômico e avaliação de programas sociais com foco em redução da pobreza.

Em entrevista ao FGV EESP Clear, o doutor em economia pela Universidade de Oxford e atual diretor da Multidimensional Poverty Peer Network (MPPN) e consultor de avaliação do Unicef fala sobre as mudanças que os gestores públicos e profissionais de monitoramento e avaliação (M&A) estão passando nos últimos tempos e da necessidade premente de se comunicarem bem com o mundo. 

Para isso, o bom avaliador e gestor precisa cultivar três qualidades em um mundo complexo: curiosidade, humildade e boa comunicação. E três traços que prejudicam o trabalho na área? “Pega as qualidades e multiplica por menos um”, diz o criador e ex-secretário-executivo do Conselho Nacional de Avaliação da Política de Desenvolvimento Social (Coneval) do México e um dos responsáveis pela Agenda de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU).  

De maneira geral, o mundo tem avançado no monitoramento e avaliação de políticas públicas? Em que medida? 
Comparando com 25, 30 anos atrás há muito mais práticas de M&A hoje em dia, mais interesse no tema e também mais institucionalização. Há 30 anos poucos países tinham esse tema de maneira clara nos seus processos de planejamento. E hoje vemos que há muitos países com avaliações na área de planejamento, de orçamento ou na própria presidência.  

Quais são os desafios mais importantes no momento? 
Além da pandemia, devemos avançar em técnicas, em combinar melhor a avaliação e o monitoramento da avaliação da política pública. Acho que as vezes a avaliação e o monitoramento ficam em âmbitos distintos e não conversam entre si. Mas acho que falta sobretudo aos avaliadores de políticas públicas melhorar as narrativas, a venda de seus produtos. Os avaliadores não são bons vendedores ou são pessoas que não explicam com facilidade o que criam tecnicamente. Quanto mais acadêmicos somos, mais complicado fica para o público geral. 

E como se comunicar melhor? 
Os avaliadores — que muitas vezes têm mestrado ou doutorado — às vezes acham que fazer um trabalho tecnicamente muito bom vai ser o suficiente para que ele seja levado em conta na hora de definir uma política pública. Não é assim. A política pública é muito mais complexa do que ler um paper e aplicá-lo em um governo. O avaliador precisa entender que não é mais inteligente que os políticos e os que fazem políticas públicas e que nosso papel é pensar qual a melhor maneira de convencer as pessoas dos benefícios de um processo ou sistema de avaliação. E em certas ocasiões avaliar se não vale a pena contratar terceiros, os chamados evaluation brokers, que sabem as melhores formas de vender determinada técnica ao público. 

Levando em conta que os efeitos vão durar ainda por anos, quais os desafios colocados pela pandemia à área de M&A? 

A pandemia pode ter dois efeitos contrários. Os países podem ficar focando mais no que é considerado urgente, no que tem que ser feito agora, se esquecendo da avaliação e do monitoramento como parte do planejamento de uma política. O outro efeito é que a pandemia torne muito mais clara a importância da evidência, da ciência, do planejamento, da prevenção, de se ter políticas públicas efetivas. Por exemplo, muitos governos reduziram os orçamentos e classificaram monitoramento e avaliação como áreas não essenciais. Isso não é bom. Mas ao mesmo tempo há uma geração de conhecimento em diversos lugares que mostram que a evidência e a ciência são o que, de fato, mais está ajudando, como no caso das vacinas. Tomara que, dos dois efeitos, ganhe o segundo. 

Muitas vezes gestores enfrentam resistências dentro dos governos na hora de implementar práticas de M&A. Quais conselhos você daria a esses servidores públicos? 
É muito fácil encontrar resistência dentro dos governos, porque avaliar as vezes é tido como um julgamento, uma acusação, quando na verdade o elemento mais importante da avaliação é a melhoria contínua. É isso o que possibilita: vermos o que estamos fazendo e o que podemos melhorar. Para furar essa resistência é preciso ir convencendo as pessoas que as avaliações são ferramentas para melhorar as políticas. Também aconselharia a começar os trabalhos de avaliação com ministérios e secretarias que estão mais abertos à avaliação, que vão cooperar melhor. E se isso tem sucesso, outros ministérios e secretárias devem se somar depois. Outro tema que sempre vai aparecer é o da narrativa. Ter a capacidade de convencer, dizer, com exemplos e sem equações e modelos muito sofisticados, que as avaliações nos ajudam, são uma maneira de progredir. 

Qual a importância da narrativa nesse sentido? 
Somos cada vez mais afetados por um conjunto de informações que chegam a nós por todas as vias: celular, televisão, rádio, jornal. A todo momento decidimos e buscamos informação. O ponto negativo é que muitas vezes essa informação é muito ruim, isso quando não é verdadeira. Portanto, a avaliação hoje tem muito mais competição que antes. Se a avaliação e a evidência mais robusta e elaborada podem ter melhores narrativas, então pode-se competir melhor com coisas como o presidente dos Estados Unidos dizendo que ingerir desinfetante funciona contra a covid-19. Ao mesmo tempo, um avaliador às vezes diz as coisas de forma complicada, não muito fácil de entender para grande parte da população. Assim como avançamos na parte técnica, podemos também ter a capacidade de vender melhor a avaliação, a informação e a evidência com mais elementos de verdade. 

Os organismos multilaterais e as agências de desenvolvimento estão trabalhando melhor com os governos do que antes? 
Eu diria que sim, que as instâncias internacionais estão trabalhando melhor com os países. Por exemplo, a recém-lançada Global Evaluation Initiative (GEI) busca somar forças em matéria de M&A para melhorar esses sistemas, mas a partir dos países. Ou seja, reconhece que é preciso ir junto com os países para melhorar esses processos. A Unicef colocou como elemento importante em sua agenda de avaliação a Country-led Evaluation, que são avaliações não feitas mais pela Unicef, mas diretamente pelos governos e apoiadas por ela. O Banco Mundial e outros também estão fazendo isso, o que mostra que para melhorar o que as agências internacionais fazem para apoiar os países é necessário escutá-los, olhá-los como sócios e parceiros. Antes havia uma abordagem muito de cima para baixo, de “eu te empresto o dinheiro, então te digo o que fazer”. 

Os países estão mais atentos em adotar essas agendas? 
Vários países estão interessados. Na América Latina temos o orgulho de ter sido um pouco pioneiros no tema, mas agora há avanços em muitas regiões do mundo, como na África do Sul, Uganda, Gana e Índia. Mas claro que isso depende muito da conjuntura de cada país. Dependendo do governo, com presidentes ou ministros mais populistas, a evidência não é relevante, e sim o que pensa o presidente. Quando isso acontece, seja ele de direita ou de esquerda, não ajuda no fomento do M&A. Há países que pararam a evolução dessas práticas porque o governo de turno pensa que elas não são muito relevantes. Espero que a longo prazo o mundo retome a importância da evidência, de obter informação relevante para melhorar o que fazemos. A sociedade civil tem esse papel de pressionar, até porque muitos desses governos são democráticos, foram eleitos. Esse é um dos desafios atuais. 

Quais são as tendências para o futuro? 
Tem a ver com como ir incorporando novas metodologias a partir de dados novos de tecnologias que antes não existiam ou eram impensáveis, como big data por exemplo. Como usar a informação do big data nos processos de M&A. A pandemia nos ensinou como mudar a forma de gerar informação, que ela não dependa somente de uma entrevista cara a cara, como agora, por exemplo. Há tendências também não só para melhorar a parte técnica, como nas avaliações de impacto, onde há sempre o que ir melhorando, mas também nas avaliações que implicam avaliar uma política como um todo. Ou seja, em como gerar informações de causalidades com técnicas que tenham que ir além dos controles aleatorizados. 

Quais são três qualidades indispensáveis nos profissionais de M&A? 
Os que geram os processos, os que fazem as avaliações, os que que geram os indicadores e os monitoram devem ser pessoas muito curiosas. Perguntar sobre as coisas é imprescindível. Uma solidez técnica com estudos também é importante, mas isso não pode se transformar em algo pedante. Quando os avaliadores pensam que são melhores que o resto, a narrativa e o convencimento não fluem. É preciso ser humilde. E a terceira característica seria o avaliador que é consciente que tem que convencer um político em um elevador. É relevante saber se expressar e convencer diferentes públicos. 

E o oposto, características que não casam com esse tipo de trabalho? 
Multiplica isso que eu disse por menos um (risos). 

Qual o papel de centros como o FGV EESP Clear ao fazer a disseminação de práticas e conhecimentos de M&A? 
Centros como o FGV EESP Clear são uma ideia muito boa e estão fazendo um bom trabalho pelo mundo. Espero que com a criação da GEI haja um reforço nas tarefas de avaliação e ajuda dos centros como o Clear aos países em como diagnosticar melhor o monitoramento de suas políticas, por exemplo. Se podemos ser sócios de um país e trabalharmos em conjunto, como esses centros em todo o mundo têm feito, me parece um bom caminho. E temos que seguir avançando em temas técnicos, mas reconhecendo a importância da política. Sempre digo que a construção de um sistema de avalição e monitoramento é um desafio político-institucional com elementos técnicos e não o contrário. Um sistema de avaliação tem que ter bons elementos técnicos, mas mais importante é construir os processos políticos e institucionais. Se compreendemos isso, e certamente centros como Clear estão indo nessa direção, poderemos progredir mais rápido. 

Comentários (1)

  • Lucia Carvalho:

    Excelente entrevista pela sintonia fina com a realidade vivida pelos gestores publicos envolvidos com o campo avaliativo.Temos sim,que colocar a dimensão politico institucional em nosso universo e relativizar o tecnicismo.E pensar a Comunicaçao para narrativas de entendimento facil.

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